Na cena de abertura do indicado para Melhor Filme O Agente Secretoo motorista Armando Solimões está abastecendo quando é abordado por dois policiais. Apesar de Armando estar dirigindo há dias e querer apenas chegar ao seu destino em Recife, capital do estado brasileiro de Pernambuco, os policiais demoram a fiscalizar seu veículo. Depois de se certificarem de que tudo está em ordem, os policiais pedem a Armando uma doação para o Fundo de Carnaval da Polícia, revelando tudo como um exercício de pequena corrupção estatal.
A poucos metros de Armando e dos policiais está um cadáver no estacionamento empoeirado do posto de gasolina. Antes da chegada dos policiais, Armando conversa sobre o corpo com o frentista, que reclama do mau cheiro do cadáver, mas também lamenta que sair das bombas para se desfazer do corpo possa levá-lo à demissão. Enquanto ele e Armando riem do horror banal da situação, o atendente admite: “Estou quase me acostumando com essa merda”.
Nas quase três horas que se seguem, o escritor e diretor Kleber Mendonça Filho preencherá O Agente Secreto com todo tipo de absurdo cinematográfico e crueldade desenfreada. Como mostra a cena do posto de gasolina, essa crueldade costuma ser banal, algo com o qual você pode se acostumar… quase. Mas O Agente Secreto também sabe que formas poderosas de resistência também podem ser encontradas no mundano.
Agentes do Caos
Apesar do que o título possa sugerir, O Agente Secreto na verdade não é sobre um agente secreto. Filho mantém as motivações de Armando Solimões obscuras até a metade do filme. Interpretado com profundidade e charme por Wagner Moura, indicado ao prêmio de Melhor Ator, Armando é quieto, gentil e claramente exausto. No entanto, é fácil acreditar que Armando possa ser um agente, dada a elevada tensão do mundo ao seu redor.
O Agente Secreto se passa em 1977, no meio da ditadura militar brasileira iniciada em 1964, quando as forças armadas do país – com a ajuda dos Estados Unidos – derrubaram o governo. Os cidadãos vivem no medo constante daqueles que estão no poder, pessoas que oprimem os outros, mesmo pelas razões mais mesquinhas.
Lembretes desse poder aparecem ao longo do filme, na forma do corpo no posto de gasolina ou de uma perna decepada encontrada na barriga de um tubarão. A notícia de um tubarão com uma perna na boca inflama a imaginação do público, que também está louco pela história de Steven Spielberg Maxilas como todo mundo no final dos anos 70, mas o delegado Euclides (Robério Diógenes) e seus homens sabem que a perna pertencia a um estudante comunista que eles assassinaram. Euclides incentiva histórias cada vez mais ultrajantes sobre uma perna decepada atacando a comunidade gay durante o carnaval porque isso desvia a atenção da verdadeira fonte.
Euclides também toma conhecimento de Armando, que se autodenomina Marcello e conseguiu emprego no escritório de identidade da cidade. Inteligente o suficiente para saber que Armando não é quem afirma ser, mas preocupado com a possibilidade de ser enviado por um oficial de alto escalão ressentido, Euclides tenta fazer amizade com ele. Pior ainda, um empresário chamado Ghirotti (Luciano Chirolli) enviou dois assassinos imorais (Roney Villela e Gabriel Leone) atrás de Armando.
Filho contrasta essa situação agravada com interlúdios absurdos, que vão desde uma sequência com uma perna decepada em stop-motion atacando pessoas até cenas de espectadores convulsionando enquanto assistem O presságio. No entanto, os momentos mais poderosos O Agente Secreto ou aqueles que são quietos, normais, humanos.
O Elemento Humano
Mais ou menos na metade O Agente Secretofinalmente descobrimos a verdade sobre as intenções de Armando. Anos antes, Armando atuava como chefe do departamento de ciências da Universidade Federal de Pernambuco, o que chamou a atenção do industrial Ghirotti. Ghirotti não só insultou a esposa de Armando, Fátima (Alice Carvalho), e expressou opiniões racistas e classistas durante sua visita à escola, mas também desmantelou o departamento para aumentar seus próprios lucros.
Após a morte de Fátima, Armando quer sair do Brasil com o filho Fernando (Enzo Nunes) e ingressar em outra escola no exterior. Mas antes de deixar o país, Armando precisa encontrar os arquivos de sua falecida mãe, uma mulher que morreu quando ele era muito jovem. Como ele afirma ao falar com dois combatentes da resistência que podem ajudá-lo a deixar o país, Armando procura “o único documento que prove que a minha mãe existiu”.
A revelação é tão sutil, tão normal que os espectadores poderiam ser desculpados por perdê-la. Armando pode passar tempo com combatentes da resistência e comunistas, pode ser alvo de funcionários do governo e assassinos, pode estar a operar sob um nome falso e sob falsos pretextos, mas não é um guerreiro. Ele é simplesmente um homem que lamenta a perda de sua esposa, que quer proteger seu filho e que quer se lembrar de sua mãe.
Esses desejos simples aparecem por toda parte O Agente Secreto. Filho usa a duração tranquila de 161 minutos do filme para se deter nas pessoas sendo pessoas. Casais fogem para fazer sexo. Dona Sebastiana (Tânia Maria), que dirige a comunidade de refugiados, para para ouvir a todos, desde foliões até quem sofre de dores de cabeça. Numa coda comovente, mas enfurecedora, o adulto Fernando (também interpretado por Moura) conversa com um universitário que pesquisa sobre Armando na atualidade.
Em cada um destes casos, somos lembrados de que, por mais perigoso e absurdo que o regime possa ser, ele não pode destruir completamente a única coisa que sempre se opõe a ele: a mera existência do povo.
Assistindo como resistência
Para a maioria de nós que estamos atualizando isso durante a temporada do Oscar, O Agente Secreto é opaco e desafiador, mesmo quando é emocionante. O olhar de Filho para os detalhes e a propensão ao surrealismo fazem com que o filme pareça inacessível para quem não entende as especificidades do Brasil dos anos 1970.
No entanto, há duas coisas que todo espectador de O Agente Secreto tem em comum com aqueles na tela. Primeiro, eles são todos humanos, e a paixão, a raiva, o amor e a tristeza na tela nos conectam a todos, não importa quão longe estejamos de Recife. Em segundo lugar, estamos assistindo a um filme e os personagens O Agente Secreto são todos cinéfilos. Eles sabem que mesmo coisas carnudas como Maxilas e O presságio pode criar reações imediatas e poderosas.
Essas conexões nos lembram o trabalho que O Agente Secreto faz, especialmente para os espectadores que assistem seu próprio governo se tornar mais mesquinho, bobo e cruel. Os filmes nos mostram seres humanos como seres humanos, eles agem como máquinas de empatia. E enquanto houver empatia, nenhum regime opressivo terá sucesso.
O Agente Secreto será transmitido no Hulu em 1º de março de 2026.
